terça-feira, 18 de junho de 2013
BRASIL VAI ÀS RUAS E FAZ HISTÓRIA
Tudo o que se disser agora será pouco e inconclusivo. O fato é que está se escrevendo a nova história do país. Consolidada a democracia, o povo quer mais. Estamos no "Era uma vez..." e pretendemos chegar ao "Viveram felizes para sempre".
O "vem pra rua, vem, contra o aumento" foi a primeira onda do verdadeiro tsunami que se forma no Brasil, exigindo mais respeito, qualidade de vida, melhorias na educação, saúde, transporte, segurança, justiça, contra os abusos de poder e a corrupção, e por uma nova política.
O movimento - que cresce espontaneamente, pela força das redes sociais, por fora dos partidos e das organizações tradicionais - já se equipara às históricas manifestações pela redemocratização do país, as "Diretas já!" e os "caras-pintadas" que anteciparam o impeachment do presidente Fernando Collor.
Os governantes estão sendo questionados e desafiados - todos eles: prefeitos, governadores e a presidente da República. Acostumados a um raciocínio cartesiano, dizem-se dispostos a "negociar com os líderes do movimento", sem compreender a horizontalidade e o espontaneísmo das manifestações.
Iniciados a partir do Movimento Passe Livre, composto por meia centena de jovens bem articulados que defendem a "tarifa zero" no transporte público, os protestos escapam de qualquer controle ou direcionamento político-partidário. Não há líderes nem liderados. O que toma conta das ruas é a indignação do povo. Tudo isso faz bem para a alma.
Leia também:
As vozes que se ouvem nas redes e nas ruas
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Em protesto de SP, maioria não tem partido, diz Datafolha
Roda Viva: Movimento Passe Livre
Imprensa internacional destaca manifestações no Brasil
segunda-feira, 17 de junho de 2013
As vozes que se ouvem nas redes e nas ruas
Ouça as vozes das ruas e das redes. Alguma coisa está acontecendo. Já podemos vislumbrar mudanças sociais? Econômicas? Políticas?
A profundidade e a importância dos acontecimentos, como em quase todos os fatos históricos, não saberemos agora, no calor das emoções, mas com o distanciamento crítico e o passar do tempo. Porém, o movimento está aí, queiramos ou não.
Não se trata de um protesto por míseros 20 centavos na tarifa de ônibus. Acorde! Caia na real! O que une cada vez mais pessoas é a indignação e o descontentamento contra os abusos do poder, contra o descaso, contra o(s) governo(s), contra a corrupção, contra a desiguldade, contra a intolerância, contra a injustiça.
Será um movimento espontâneo ou orquestrado? Pouco importa, ainda que seja significativo e didático que o PT experimente do seu próprio veneno. De pedra a vidraça, não passarão incólumes as contradições da transformação do partido-modelo da oposição em traidor das causas populares e sociais no governo.
Cada um manifesta os seus próprios motivos, mas a soma de cada interesse (individual ou coletivo) torna crescente a onda que atinge as grandes cidades. Não é à toa que as pessoas estão nas ruas. Há excessos? Sim, mas também existe legitimidade e vida inteligente entre os dois extremos: entre aqueles que só tem olhos para violência exacerbada da polícia e os que enxergam unicamente os atos de vandalismo dos manifestantes.
Será o princípio do fim? Estarão contados os dias desses atuais ocupantes do poder? Confirma-se a previsão de que a população está saturada de PT e PSDB, e procura uma via alternativa? Crescem as chances de Eduardo Campos e Marina Silva em 2014? Por enquanto, são perguntas sem respostas.
Veja outros textos interessantes que também comentam os acontecimentos da semana; colaboram para a reflexão:
Nos anos 1980, novas gerações lutaram nas ruas pelas "diretas, já". E, nos 1990, milhares pintaram a cara pelo impeachment de Collor. Mais do que demolir um presidente indesejável, sonhavam edificar um país mais justo, mais decente.
A década de 2000 passou em branco. Inebriados pelo mito Lula e a miragem da esquerda pura e ética, os movimentos acomodaram-se e a estudantada recolheu-se à sala de aula. Utopias e sonhos coletivos cederam às ambições pessoais. O "cada um por si" venceu o "um por todos, todos por um".
As manifestações de agora começaram por 20 centavos a mais na passagem de ônibus em São Paulo e alastraram-se para Rio, Curitiba, Goiânia, Teresina e outras capitais. Coincidiram com os tambores de guerra dos índios e podem ser o fim da longa hibernação, um sinal para os Poderes da República. Basta de violência, de desvios, de impunidade.
É nesse clima que o país é informado de uma tal "Resistência Urbana - Frente de Movimentos e Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa". No Rio, fazem passeatas. Em Brasília, queimam pneus e fecham avenidas contra a farra dos estádios com dinheiro público.
E os protestos vão longe. Pela internet, o novo "Democracia não tem fronteiras" convoca estudantes e trabalhadores brasileiros para manifestações, terça-feira, em 30 cidades de 15 países.
Seria ingenuidade imaginar que tudo isso é uma enorme coincidência e que não há nenhuma conexão entre grupos e manifestações - ao menos uma mesma motivação.
O espectro da insatisfação ronda o Brasil. E pode explicar até a inexplicável violência de policiais -eles próprios são cidadãos irritados.
Imprensa é acusada de chamar manifestantes de 'baderneiros' e de criticar a polícia por corporativismo
Os protestos que tomaram a avenida Paulista deixaram um rastro de destruição, uma centena de feridos, duas centenas de presos e muita indignação em relação à mídia.
A primeira onda de críticas acusava a imprensa de tratar a todos como "vândalos" e de destacar apenas os estragos provocados pelo que seria um pequeno grupo entre os milhares de manifestantes.
De fato, Folha, "Estado" e "Jornal Nacional" só tinham olhos para a destruição provocada pela turba. Não há dúvida de que a notícia principal era o ânimo incendiário de parte dos ativistas, mas o erro foi ter generalizado. Não se dimensionou qual era a parcela dos manifestantes que estava ali apenas para depredar nem se deu o devido destaque aos demais.
A Folha abriu espaço para que os líderes do Movimento Passe Livre publicassem um artigo explicando "por que estamos nas ruas", mas não havia menção ao texto na "Primeira Página", que trouxe, por dois dias seguidos, a história do policial que, apesar de ferido, não atirou contra os manifestantes.
Os que acreditavam que a Folha estava sendo injusta com o movimento ganharam um fortíssimo argumento com a publicação, na quinta-feira, do editorial "Retomar a Paulista". Os ativistas foram definidos como "jovens predispostos à violência por uma ideologia pseudorrevolucionária".
O "grupelho", segundo o texto, "ciente de sua condição marginal e sectária", move-se por uma "intenção oculta de vandalizar equipamentos públicos e o que toma por símbolos do poder capitalista".
"É hora de pôr um ponto final nisso", conclamava o editorial, em consonância com o "Estado de S. Paulo", que publicou no mesmo dia "Chegou a hora do basta".
A diferença entre os dois textos era que a Folha indicava a "força da lei" para coibir o vandalismo ("investigar, identificar e processar os responsáveis"), enquanto o "Estado" incitava o governador Geraldo Alckmin a abandonar o que seria uma postura "excessivamente moderada" para deixar a polícia "agir com maior rigor".
Tudo mudou na edição de sexta-feira. A Folha era toda crítica à ação policial, avaliada como "violenta". Havia flagrantes de abusos, depoimentos de feridos, o relato de que os distúrbios foram provocados pela Tropa de Choque e até uma foto de manifestantes "do bem" ajudando um senhor a fugir da confusão.
O "Estado" noticiou a truculência policial, mas falou em "confronto" entre manifestantes e PM.
Em vez de elogios, a Folha recebeu uma segunda onda de críticas: o jornal só teria mudado de postura porque teve sete repórteres feridos, um dos quais gravemente.
Essa acusação, de corporativismo, é injusta. A edição refletiu uma passeata diferente das anteriores, na qual os militantes estavam incrivelmente bem-comportados e a polícia, muito mais agressiva.
Em editorial publicado ontem, o jornal acusou a PM de ter "protagonizado um espetáculo de despreparo, truculência e falta de controle ainda mais grave que o vandalismo e a violência dos manifestantes, que tinha por missão coibir".
Mas a luta continua. Há um novo ato marcado; o movimento pode crescer e ganhar mais legitimidade -antes da pancadaria, o Datafolha já registrava que 55% dos paulistanos apoiavam os protestos.
À reportagem cabe manter o prumo e se dedicar a explicar quem são esses jovens insatisfeitos, de onde vêm e o que os move. O leitor já percebeu que eles não são nem os "baderneiros marginais" dos primeiros protestos nem as "vítimas indefesas" do último ato.
O sistema está sendo incapaz de processar os grandes atos de protesto, na Paulista ou na Europa
Começo por onde esse excelente Hélio Schwartsmann terminou sua coluna de sexta-feira na Folha: "Mesmo rejeitando o vandalismo, deve-se reconhecer que protestos por vezes tonificam a democracia".
De acordo, Hélio. Pena que essa indiscutível verdade teórica esteja sendo desmentida na prática nos últimos muitos anos - e não só nem principalmente no Brasil.
Desde os primeiros grandes protestos contra a globalização, adquiri vastíssima quilometragem na cobertura de manifestações de massa em diferentes países e por diferentes motivos. São mais de 20 anos de gás lacrimogêneo ingerido e de incontáveis vidraças de McDonald's quebradas (não por mim, que fique claro), o suficiente para poder afirmar que a democracia está sendo incapaz de processar os protestos que deveriam tonificá-la.
Tome-se o caso dos protestos contra a globalização: perseguiam cada reunião internacional, qualquer que fosse o local de sua realização.
Uma das maiores (Seattle, 1999) conseguiu a nada desprezível proeza de impedir que a secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright à época, fizesse o discurso inaugural de uma conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio.
Nunca me esqueci de uma jovem estudante a quem eu tentava convencer de me deixar passar para o centro de imprensa, argumentando que precisava contar ao mundo o que eles estavam fazendo. E ela: "Fuck you. Não precisamos de vocês para isso".
Parecia absolutamente segura de que as mídias alternativas relatariam a marcha triunfal rumo ao sucesso dos grupos que a direita batizou de "globalifóbicos" para tentar ridicularizá-los.
A marcha triunfal foi interrompida pelo 11 de Setembro e pela malandra equiparação dos protestos a terrorismo (muito pior do que acusar os manifestantes apenas de vândalos, certo?).
Mais recentemente, vieram os "indignados". Multidões em praças públicas que fazem parecer meros convescotes em família os grupos reunidos na avenida Paulista. Obtiveram resultados? Nenhum. O "austericídio" prossegue impávido, enquanto os "indignados" submergem. Estão por aí, mas não conseguem traduzir sua força numérica em propostas que a democracia possa processar com seus mecanismos convencionais.
A consequência desse descompasso pode ser terrível, escrevem para "El País" José Ramón Montero e Mariano Torcal, catedráticos de Ciência Política em Madri e Barcelona, respectivamente:
"Se os protestos se mantiverem ante a incompetência, a acomodação ou a frivolidade das elites políticas, o descontentamento poderia radicalizar-se e chegar ao âmbito eleitoral, com consequências imprevisíveis. E, se os protestos forem sistematicamente descartados e não forem acompanhados de mudanças relevantes, o desamor poderia agravar os sentimentos de frustração entre os que por fim exercem sua voz".
Vale para a Espanha, vale para o resto da Europa, vale para o Brasil. Cá como lá, a democracia está flácida em vez de tonificada.
Milhares de pobres felizes inundarão a TV em comerciais estatais nos próximos dias falando como é maravilhoso comprar um forno de micro-ondas ou um sofá financiado por Dilma Rousseff. A presidente despejará bilhões de reais nessa nova modalidade de felicidade instantânea - futura nem tanto.
Os comerciais de TV do governo (por meio da Caixa) são o único ambiente do mundo no qual os pobres estão sempre 100% felizes. Faz parte. Propaganda é para melhorar o astral de quem assiste. Afinal, quem olha pela janela em grandes centros urbanos não tem visto tanta alegria assim nos últimos dias.
As manifestações do Movimento Passe Livre em São Paulo e em outras capitais podem ser analisadas de várias formas. Muito já foi dito (e ainda será) sobre o despreparo da polícia. Ou a respeito do vandalismo incivilizado de parte dos ativistas.
Só que o mais relevante talvez seja a mensagem difusa vinda das ruas. Apesar do alto grau de aprovação das administrações federal e estadual (de São Paulo), há uma insatisfação latente em grandes metrópoles. Está claro que o tal Movimento Passe Livre não controla tudo.
Para cada pessoa protestando na rua há outras milhares que preferem ficar em casa, embora não menos insatisfeitas. Uma análise chapa-branca poderia argumentar que os protestos atuais são inconsequentes. O Brasil crescerá neste ano mais do que em 2012. Há pleno emprego. Tudo isso é verdade. Ainda assim, cidadãos podem considerar isso insuficiente para sorrir como nas propagandas.
Quem vive em grandes cidades sabe muito bem. São Paulo e Rio têm cotidianos inviáveis. Trânsito insuportável, transporte público péssimo, poluição, saúde pública ruim. Há, é claro, o programa Meu Micro-Ondas, Minha Vida. Mas, às vezes, só um eletrodoméstico é pouco para manter os cidadãos comportados dentro de casa e assistindo a pobres felizes nos comerciais de TV.
A profundidade e a importância dos acontecimentos, como em quase todos os fatos históricos, não saberemos agora, no calor das emoções, mas com o distanciamento crítico e o passar do tempo. Porém, o movimento está aí, queiramos ou não.
Não se trata de um protesto por míseros 20 centavos na tarifa de ônibus. Acorde! Caia na real! O que une cada vez mais pessoas é a indignação e o descontentamento contra os abusos do poder, contra o descaso, contra o(s) governo(s), contra a corrupção, contra a desiguldade, contra a intolerância, contra a injustiça.
Será um movimento espontâneo ou orquestrado? Pouco importa, ainda que seja significativo e didático que o PT experimente do seu próprio veneno. De pedra a vidraça, não passarão incólumes as contradições da transformação do partido-modelo da oposição em traidor das causas populares e sociais no governo.
Cada um manifesta os seus próprios motivos, mas a soma de cada interesse (individual ou coletivo) torna crescente a onda que atinge as grandes cidades. Não é à toa que as pessoas estão nas ruas. Há excessos? Sim, mas também existe legitimidade e vida inteligente entre os dois extremos: entre aqueles que só tem olhos para violência exacerbada da polícia e os que enxergam unicamente os atos de vandalismo dos manifestantes.
Será o princípio do fim? Estarão contados os dias desses atuais ocupantes do poder? Confirma-se a previsão de que a população está saturada de PT e PSDB, e procura uma via alternativa? Crescem as chances de Eduardo Campos e Marina Silva em 2014? Por enquanto, são perguntas sem respostas.
Veja outros textos interessantes que também comentam os acontecimentos da semana; colaboram para a reflexão:
Insatisfação
(Eliane Cantanhêde, colunista da Folha)
Nas décadas de 1960 e 1970, secundaristas e universitários lutaram bravamente contra uma ditadura e a favor de utopias sedutoras. Muitos morreram e foram torturados quase ainda crianças.
A década de 2000 passou em branco. Inebriados pelo mito Lula e a miragem da esquerda pura e ética, os movimentos acomodaram-se e a estudantada recolheu-se à sala de aula. Utopias e sonhos coletivos cederam às ambições pessoais. O "cada um por si" venceu o "um por todos, todos por um".
As manifestações de agora começaram por 20 centavos a mais na passagem de ônibus em São Paulo e alastraram-se para Rio, Curitiba, Goiânia, Teresina e outras capitais. Coincidiram com os tambores de guerra dos índios e podem ser o fim da longa hibernação, um sinal para os Poderes da República. Basta de violência, de desvios, de impunidade.
É nesse clima que o país é informado de uma tal "Resistência Urbana - Frente de Movimentos e Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa". No Rio, fazem passeatas. Em Brasília, queimam pneus e fecham avenidas contra a farra dos estádios com dinheiro público.
E os protestos vão longe. Pela internet, o novo "Democracia não tem fronteiras" convoca estudantes e trabalhadores brasileiros para manifestações, terça-feira, em 30 cidades de 15 países.
Seria ingenuidade imaginar que tudo isso é uma enorme coincidência e que não há nenhuma conexão entre grupos e manifestações - ao menos uma mesma motivação.
O espectro da insatisfação ronda o Brasil. E pode explicar até a inexplicável violência de policiais -eles próprios são cidadãos irritados.
Faroeste urbano
(Suzana Singer, ombudsman da Folha)
A primeira onda de críticas acusava a imprensa de tratar a todos como "vândalos" e de destacar apenas os estragos provocados pelo que seria um pequeno grupo entre os milhares de manifestantes.
De fato, Folha, "Estado" e "Jornal Nacional" só tinham olhos para a destruição provocada pela turba. Não há dúvida de que a notícia principal era o ânimo incendiário de parte dos ativistas, mas o erro foi ter generalizado. Não se dimensionou qual era a parcela dos manifestantes que estava ali apenas para depredar nem se deu o devido destaque aos demais.
A Folha abriu espaço para que os líderes do Movimento Passe Livre publicassem um artigo explicando "por que estamos nas ruas", mas não havia menção ao texto na "Primeira Página", que trouxe, por dois dias seguidos, a história do policial que, apesar de ferido, não atirou contra os manifestantes.
Os que acreditavam que a Folha estava sendo injusta com o movimento ganharam um fortíssimo argumento com a publicação, na quinta-feira, do editorial "Retomar a Paulista". Os ativistas foram definidos como "jovens predispostos à violência por uma ideologia pseudorrevolucionária".
O "grupelho", segundo o texto, "ciente de sua condição marginal e sectária", move-se por uma "intenção oculta de vandalizar equipamentos públicos e o que toma por símbolos do poder capitalista".
"É hora de pôr um ponto final nisso", conclamava o editorial, em consonância com o "Estado de S. Paulo", que publicou no mesmo dia "Chegou a hora do basta".
A diferença entre os dois textos era que a Folha indicava a "força da lei" para coibir o vandalismo ("investigar, identificar e processar os responsáveis"), enquanto o "Estado" incitava o governador Geraldo Alckmin a abandonar o que seria uma postura "excessivamente moderada" para deixar a polícia "agir com maior rigor".
Tudo mudou na edição de sexta-feira. A Folha era toda crítica à ação policial, avaliada como "violenta". Havia flagrantes de abusos, depoimentos de feridos, o relato de que os distúrbios foram provocados pela Tropa de Choque e até uma foto de manifestantes "do bem" ajudando um senhor a fugir da confusão.
O "Estado" noticiou a truculência policial, mas falou em "confronto" entre manifestantes e PM.
Em vez de elogios, a Folha recebeu uma segunda onda de críticas: o jornal só teria mudado de postura porque teve sete repórteres feridos, um dos quais gravemente.
Essa acusação, de corporativismo, é injusta. A edição refletiu uma passeata diferente das anteriores, na qual os militantes estavam incrivelmente bem-comportados e a polícia, muito mais agressiva.
Em editorial publicado ontem, o jornal acusou a PM de ter "protagonizado um espetáculo de despreparo, truculência e falta de controle ainda mais grave que o vandalismo e a violência dos manifestantes, que tinha por missão coibir".
Mas a luta continua. Há um novo ato marcado; o movimento pode crescer e ganhar mais legitimidade -antes da pancadaria, o Datafolha já registrava que 55% dos paulistanos apoiavam os protestos.
À reportagem cabe manter o prumo e se dedicar a explicar quem são esses jovens insatisfeitos, de onde vêm e o que os move. O leitor já percebeu que eles não são nem os "baderneiros marginais" dos primeiros protestos nem as "vítimas indefesas" do último ato.
O fracasso da democracia
(Clóvis Rossi, correspondente da Folha)
Começo por onde esse excelente Hélio Schwartsmann terminou sua coluna de sexta-feira na Folha: "Mesmo rejeitando o vandalismo, deve-se reconhecer que protestos por vezes tonificam a democracia".
De acordo, Hélio. Pena que essa indiscutível verdade teórica esteja sendo desmentida na prática nos últimos muitos anos - e não só nem principalmente no Brasil.
Desde os primeiros grandes protestos contra a globalização, adquiri vastíssima quilometragem na cobertura de manifestações de massa em diferentes países e por diferentes motivos. São mais de 20 anos de gás lacrimogêneo ingerido e de incontáveis vidraças de McDonald's quebradas (não por mim, que fique claro), o suficiente para poder afirmar que a democracia está sendo incapaz de processar os protestos que deveriam tonificá-la.
Tome-se o caso dos protestos contra a globalização: perseguiam cada reunião internacional, qualquer que fosse o local de sua realização.
Uma das maiores (Seattle, 1999) conseguiu a nada desprezível proeza de impedir que a secretária de Estado norte-americana, Madeleine Albright à época, fizesse o discurso inaugural de uma conferência ministerial da Organização Mundial do Comércio.
Nunca me esqueci de uma jovem estudante a quem eu tentava convencer de me deixar passar para o centro de imprensa, argumentando que precisava contar ao mundo o que eles estavam fazendo. E ela: "Fuck you. Não precisamos de vocês para isso".
Parecia absolutamente segura de que as mídias alternativas relatariam a marcha triunfal rumo ao sucesso dos grupos que a direita batizou de "globalifóbicos" para tentar ridicularizá-los.
A marcha triunfal foi interrompida pelo 11 de Setembro e pela malandra equiparação dos protestos a terrorismo (muito pior do que acusar os manifestantes apenas de vândalos, certo?).
Mais recentemente, vieram os "indignados". Multidões em praças públicas que fazem parecer meros convescotes em família os grupos reunidos na avenida Paulista. Obtiveram resultados? Nenhum. O "austericídio" prossegue impávido, enquanto os "indignados" submergem. Estão por aí, mas não conseguem traduzir sua força numérica em propostas que a democracia possa processar com seus mecanismos convencionais.
A consequência desse descompasso pode ser terrível, escrevem para "El País" José Ramón Montero e Mariano Torcal, catedráticos de Ciência Política em Madri e Barcelona, respectivamente:
"Se os protestos se mantiverem ante a incompetência, a acomodação ou a frivolidade das elites políticas, o descontentamento poderia radicalizar-se e chegar ao âmbito eleitoral, com consequências imprevisíveis. E, se os protestos forem sistematicamente descartados e não forem acompanhados de mudanças relevantes, o desamor poderia agravar os sentimentos de frustração entre os que por fim exercem sua voz".
Vale para a Espanha, vale para o resto da Europa, vale para o Brasil. Cá como lá, a democracia está flácida em vez de tonificada.
Os pobres felizes
(Fernando Rodrigues, colunista da Folha)
Os comerciais de TV do governo (por meio da Caixa) são o único ambiente do mundo no qual os pobres estão sempre 100% felizes. Faz parte. Propaganda é para melhorar o astral de quem assiste. Afinal, quem olha pela janela em grandes centros urbanos não tem visto tanta alegria assim nos últimos dias.
As manifestações do Movimento Passe Livre em São Paulo e em outras capitais podem ser analisadas de várias formas. Muito já foi dito (e ainda será) sobre o despreparo da polícia. Ou a respeito do vandalismo incivilizado de parte dos ativistas.
Só que o mais relevante talvez seja a mensagem difusa vinda das ruas. Apesar do alto grau de aprovação das administrações federal e estadual (de São Paulo), há uma insatisfação latente em grandes metrópoles. Está claro que o tal Movimento Passe Livre não controla tudo.
Para cada pessoa protestando na rua há outras milhares que preferem ficar em casa, embora não menos insatisfeitas. Uma análise chapa-branca poderia argumentar que os protestos atuais são inconsequentes. O Brasil crescerá neste ano mais do que em 2012. Há pleno emprego. Tudo isso é verdade. Ainda assim, cidadãos podem considerar isso insuficiente para sorrir como nas propagandas.
Quem vive em grandes cidades sabe muito bem. São Paulo e Rio têm cotidianos inviáveis. Trânsito insuportável, transporte público péssimo, poluição, saúde pública ruim. Há, é claro, o programa Meu Micro-Ondas, Minha Vida. Mas, às vezes, só um eletrodoméstico é pouco para manter os cidadãos comportados dentro de casa e assistindo a pobres felizes nos comerciais de TV.
sexta-feira, 14 de junho de 2013
Convite: 17 de junho, livro sobre Armênio Guedes
Quem é Armênio Guedes
Armênio Guedes completa 95 anos neste mês de maio, é um jornalista, dirigente histórico do PCB e incansável militante comunista.
Armênio veio de uma familia de comunistas. Foi secretário de Luís Carlos Prestes, com teve uma relação de admiração tensa, e estava com Prestes quando ele recebeu a noticia da morte de Olga Benário.
Em 30 de março de 2012, foi homenageado com o título de Cidadão Paulistano, oferecido pela Câmara Municipal de São Paulo, por iniciativa do vereador Eliseu Gabriel (PSB).
É um dos intelectuais mais identificados com a tradição "pecebista", ou seja, de buscar um “caminho democrático (e pacífico) para o socialismo”. Foi um dos redatores da “Declaração de Março de 1958”, um marco deste mesmo ideal. Por decisão partidária, viveu no exílio, passando muitos anos no Chile e depois na França, antes de regressar ao Brasil.
quinta-feira, 13 de junho de 2013
Bancada do PPS defende Parque Ecológico na Mooca
Entre as emendas que a bancada do PPS, composta pelos vereadores Ari Friedenbach e Ricardo Young, está apresentando à LDO (Lei de Diretrizes Orçamentárias) de 2014, que será discutida hoje (quinta-feira, 13 de junho), em primeira votação, na Câmara Municipal de São Paulo, destacamos a seguinte:
Emenda: Desapropriação de área particular da antiga Esso, em processo de descontaminação há mais de 10 anos supervisionada pela Cetesb, para implantação do Parque Ecológico da Mooca, entre a avenida Barão de Monte Santo e a rua Vitoantonio Del Vecchio.
Justificativa: Trata-se de uma reivindicação antiga da comunidade da Mooca, um dos bairros com menor índice de áreas verdes por habitante, no terreno de cerca de 100 mil metros quadrados onde funcionou por 60 anos um depósito de combustíveis da Esso. Há interesse de algumas construtoras para erguer condomínios residenciais no local. Porém, a população local é amplamente favorável à implantação do parque, entre a avenida Barão de Monte Santo e a rua Vitoantonio Del Vecchio, no Parque da Mooca.
O PPS também está nessa luta há muitos anos. Uma das primeiras postagens do Blog do PPS, em março de 2007, já tratava do tema: Novo "pulmão verde" em São Paulo.
O PPS também está nessa luta há muitos anos. Uma das primeiras postagens do Blog do PPS, em março de 2007, já tratava do tema: Novo "pulmão verde" em São Paulo.
Leia mais aqui sobre a reivindicação da comunidade.
quarta-feira, 12 de junho de 2013
São Paulo sob a perspectiva de Haddad...
São Paulo sob a perspectiva do cidadão paulistano:
Leia também:
Haddad: de POSTE em São Paulo a TORRE em Paris
Vexatória bajulação do PT à Fifa e a "honrosa" presença de Marin na Câmara de São Paulo
Alguns programas esportivos e uns poucos jornalistas mais politizados protestam contra o presidente da CBF, José Maria Marin, enquanto a Câmara Municipal de São Paulo faz lambança e, em vez de exigir a presença dele como convocado que foi para a Comissão da Verdade, recebe Marin como convidado de honra para uma esdrúxula e descabida homenagem aos velhinhos da Fifa.
Veja o absurdo: Marin diz que "não tem agenda" para atender a Comissão da Verdade e prestar esclarecimentos sobre o seu suposto envolvimento na tortura e morte do jornalista Vladimir Herzog na ditadura, mas é recebido no mesmo dia com pompa pelos vereadores paulistanos e por parte da cúpula petista - que viu na (des)organização e no (super)faturamento das obras da Copa um filão inestimável.
Capitaneada pela bancada do PT, a Câmara promoveu uma bajulação daquelas que causam "vergonha alheia": aprovou a entrega de um Título de Cidadão Paulistano ao presidente da FIFA, Joseph Blatter, entregue nesta segunda-feira ao secretário-geral da entidade, Jerome Valcke (aquele que prometeu dar um "chute no traseiro" dos brasileiros), com a ilustre presença de José Maria Marin na mesa de autoridades.
É preciso dizer algo mais?
Leia também:
Vereadores chutam o traseiro dos paulistanos
Juca Kfouri: Marin pode, Marin não pode
O áudio dos discursos de Marin
Marin na Câmara Municipal, insulto à Comissão Vladimir Herzog
Vereadores repudiam ausência de José Maria Marin na Comissão da Verdade
Veja o absurdo: Marin diz que "não tem agenda" para atender a Comissão da Verdade e prestar esclarecimentos sobre o seu suposto envolvimento na tortura e morte do jornalista Vladimir Herzog na ditadura, mas é recebido no mesmo dia com pompa pelos vereadores paulistanos e por parte da cúpula petista - que viu na (des)organização e no (super)faturamento das obras da Copa um filão inestimável.
Capitaneada pela bancada do PT, a Câmara promoveu uma bajulação daquelas que causam "vergonha alheia": aprovou a entrega de um Título de Cidadão Paulistano ao presidente da FIFA, Joseph Blatter, entregue nesta segunda-feira ao secretário-geral da entidade, Jerome Valcke (aquele que prometeu dar um "chute no traseiro" dos brasileiros), com a ilustre presença de José Maria Marin na mesa de autoridades.
É preciso dizer algo mais?
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Vereadores chutam o traseiro dos paulistanos
Juca Kfouri: Marin pode, Marin não pode
O áudio dos discursos de Marin
Marin na Câmara Municipal, insulto à Comissão Vladimir Herzog
Vereadores repudiam ausência de José Maria Marin na Comissão da Verdade
terça-feira, 11 de junho de 2013
Haddad: de POSTE em São Paulo a TORRE em Paris
Piadas à parte, agora os jornais anunciam que Haddad assistirá da França os novos protestos contra o aumento da tarifa de ônibus, que na semana passada paralisaram a cidade e foram notícia no mundo todo, com cenas de quebra-quebra e confrontos entre estudantes e a PM na avenida Paulista.
Está anunciada para hoje (terça-feira, 11 de junho), às 17h, a terceira manifestação do Movimento Passe Livre, cujo principal alvo é o prefeito Fernando Haddad, que sempre dá um jeitinho de fugir dos principais problemas e temas polêmicos de São Paulo.
E onde estará hoje o prefeito Haddad? Em Paris, mas acompanhando em "tempo real" as manifestações, como prometeu ontem em entrevistas. Ah, tá!
O prefeito já está na França para defender a candidatura de São Paulo à Expo Mundial 2020. "Temos uma sala de situação montada, onde vou acompanhar os eventos em tempo real, e a vice-prefeita (Nádia Campeão) permanece em São Paulo com essa mesma finalidade de termos agilidade, caso haja necessidade de uma tomada de decisão", disse o prefeito ontem.
Na semana passada, a polícia usou bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha para dissipar os manifestantes, com apoio do prefeito, que se diz contrário aos atos de vandalismo e defende o direito de ir e vir dos cidadãos que não participam dos protestos (repare que, quando o PT estava na oposição, a violência criticada era a da polícia, e os petistas apoiavam esses mesmos protestos).
"A Polícia Militar está acionada, a Guarda Civil também", avisou Haddad.
Ufa! Quanta autoridade! Que estadista este homem, benzadeus!
Leia também:
segunda-feira, 10 de junho de 2013
Os números que começam a preocupar o PT
O PT realiza periodicamente levantamentos sobre a aprovação de seus governos e já tinha apurado uma tendência de baixa, que agora foi confirmada pelo Datafolha: tanto a presidente Dilma Roussef quanto o prefeito Fernando Haddad, as duas principais vitrines petistas, apresentam queda de popularidade. Pior: o "sonho de consumo" do PT, o Governo do Estado de São Paulo, parece cada vez mais distante.
É óbvio que ainda é muito cedo para qualquer sentença definitiva, pois há incontáveis fatores objetivos e subjetivos que vão pesar na escolha do eleitor até outubro de 2014. Porém, começa a acender a luz amarela para a cúpula petista. Se é verdade que Dilma ainda lidera com folga, à caminho da reeleição, e Haddad ainda é muito bem avaliado nos primeiros cinco meses de gestão paulistana, também é visível que ambos já deixaram de ter a aprovação quase unânime que tiveram há algum tempo.
Por outro lado, o governador Geraldo Alckmin desponta como franco favorito para vencer a eleição paulista no primeiro turno contra todos os candidatos colocados: pelo PT, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha; o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo; ou o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Até o nome de Lula, a "arma secreta" cogitada pelos petistas para conquistar pela primeira vez o Governo do Estado, seria derrotado hoje com folga pelo governador tucano, segundo o Datafolha.
Também as candidaturas-satélites da base do PT, Paulo Skaf (PMDB) e Gilberto Kassab (PSD), que intensificaram nos últimos meses as críticas ao governo do Estado, parecem não representar qualquer ameaça à reeleição de Geraldo Alckmin, mantendo o PSDB e seus aliados há 20 anos no poder - com expectativa de pelo menos mais quatro anos.
Na avaliação do paulistano sobre Haddad, a impressão que se tem é de continuísmo da gestão Kassab. Não há nenhuma ação efetiva que demonstre, como foi prometido na campanha eleitoral de 2012, o "novo" modelo de governar do PT. Ao contrário, em vez do "novo" Haddad, a sensação é de Kassab "de novo". Não por acaso, a base governista é a mesma, assim como métodos, práticas e conceitos de gestão.
Identificado o problema pela cúpula petista, não surpreenderá se nas próximas semanas tanto Dilma quanto Haddad intensificarem os gastos com publicidade e abrirem os cofres públicos para ações pontuais de marketing, "inventando" novos programas e ações midiáticas. Veremos...
Leia também:
Alckmin venceria até Lula na disputa pelo governo paulista
Com 51%, Dilma continua favorita na corrida eleitoral
Avaliação negativa da gestão Haddad sobe de 14% para 21%
É óbvio que ainda é muito cedo para qualquer sentença definitiva, pois há incontáveis fatores objetivos e subjetivos que vão pesar na escolha do eleitor até outubro de 2014. Porém, começa a acender a luz amarela para a cúpula petista. Se é verdade que Dilma ainda lidera com folga, à caminho da reeleição, e Haddad ainda é muito bem avaliado nos primeiros cinco meses de gestão paulistana, também é visível que ambos já deixaram de ter a aprovação quase unânime que tiveram há algum tempo.
Por outro lado, o governador Geraldo Alckmin desponta como franco favorito para vencer a eleição paulista no primeiro turno contra todos os candidatos colocados: pelo PT, o ministro da Saúde, Alexandre Padilha; o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo; ou o ministro da Educação, Aloizio Mercadante. Até o nome de Lula, a "arma secreta" cogitada pelos petistas para conquistar pela primeira vez o Governo do Estado, seria derrotado hoje com folga pelo governador tucano, segundo o Datafolha.
Também as candidaturas-satélites da base do PT, Paulo Skaf (PMDB) e Gilberto Kassab (PSD), que intensificaram nos últimos meses as críticas ao governo do Estado, parecem não representar qualquer ameaça à reeleição de Geraldo Alckmin, mantendo o PSDB e seus aliados há 20 anos no poder - com expectativa de pelo menos mais quatro anos.
Na avaliação do paulistano sobre Haddad, a impressão que se tem é de continuísmo da gestão Kassab. Não há nenhuma ação efetiva que demonstre, como foi prometido na campanha eleitoral de 2012, o "novo" modelo de governar do PT. Ao contrário, em vez do "novo" Haddad, a sensação é de Kassab "de novo". Não por acaso, a base governista é a mesma, assim como métodos, práticas e conceitos de gestão.
Identificado o problema pela cúpula petista, não surpreenderá se nas próximas semanas tanto Dilma quanto Haddad intensificarem os gastos com publicidade e abrirem os cofres públicos para ações pontuais de marketing, "inventando" novos programas e ações midiáticas. Veremos...
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sexta-feira, 7 de junho de 2013
Cadê o PT para protestar contra aumento do ônibus?
A contradição do PT é gritante: onde estão os seus militantes que adoram sair às ruas para protestar contra os aumentos da tarifa de ônibus? Estranho! Nas últimas manifestações, os petistas estavam na linha de frente: carregavam cartazes, bandeiras, atiravam pedras e enfrentavam a polícia, tudo com pose de artistas de Hollywood diante das câmeras de TV.
Ai de quem ousasse apontar o dedo para os atos de vandalismo. Seria tachado de "direitista" e execrado nas redes sociais. Pois agora a situação se inverteu. Os protestos são contra o prefeito Fernando Haddad (PT), os manifestantes carregam bandeiras do PSOL, do PSTU e do Movimento Passe Livre, e o PT vem "lamentar a baderna, os transtornos causados e o excesso de violência".
Mas - curioso! - o PT agora só enxerga a "violência" e o "excesso" dos manifestantes - não da polícia, que reagiu com rigor aos atos de vandalismo.
PT: quem te viu, quem te vê...
Em fevereiro de 2011, os vereadores do PT estavam nas ruas de braços dados com os manifestantes, hipocrisia e demagogia à parte, defendendo os mesmos "excessos" e acusando a "violência" apenas da PM. Culpa, obviamente, do prefeito e do governador.
Os petistas José Américo e Antonio Donato, por exemplo, disseram que apanharam enquanto apoiavam as manifestações e faziam discursos inflamados contra o aumento da passagem de R$ 2,70 para R$ 3,00. Acusavam a "polícia de Kassab e Alckmin" de agressão, contra "pessoas indefesas que exerciam seu direito de cidadania".
O que mudou de lá pra cá? Saiu Kassab, entrou Haddad. Na prática, trocou-se seis por meia-dúzia. A população nem se deu conta da mudança. Não por acaso, o PSD kassabista é um dos mais fiéis partidos da base de sustentação do governo. Em vez do "novo" prometido pelo PT, está aí "de novo" a mesma turminha adesista.
Cabe como uma luva a piada: são políticos e partidos verdadeiramente "independentes", esses que cercam Haddad. Porque, independente de quem assume a Prefeitura, eles continuam no governo. Independência mais explícita e conveniente não há...
E a "polícia de Haddad e Alckmin" agora é poupada pelos antes combativos parlamentares do PT, hoje acomodados no governo e defensores da ordem e do direito de ir e vir dos cidadãos que se sentem prejudicados pela ação dos manifestantes. Mudaram os interesses, mudou o discurso.
Campo de batalha
O centro de São Paulo virou um caos na noite desta quinta-feira, 6 de junho. Mais de 2.000 pessoas fecharam as avenidas Paulista, 23 de Maio e Nove de Julho, promovendo quebra-quebra e interditando o trânsito com barricadas de fogo. A PM utilizou balas de borracha, gás e bombas para tentar conter depredações, sem sucesso; houve 15 detidos e 3 feridos.
O reajuste da tarifa de ônibus, metrô e trens, de R$ 3 para R$ 3,20, vale desde domingo e ficou bem abaixo da inflação. A alta dos ônibus foi de 6,7%, contra 15,5% do IPCA. O aumento foi decidido pelo prefeito Fernando Haddad (PT) e pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB).
Partidinho água com açúcar de Kassab
O ex-prefeito Gilberto Kassab, alvo das manifestações de fevereiro de 2011, passou de vidraça a pedra. Hoje é ele quem aproveita a situação para atacar o governo Alckmin, cujo vice Guilherme Afif (PSD)acaba de assumir um ministério de Dilma. Tudo desinteressadamente, claro, pelo bem do país.
O PSD, ajuntamento frankenstein presidido por Kassab e transformado casuísticamente em partido da base governista pela mesma legislação que hoje tenta derrubar (leia aqui editorial da Folha), saiu ontem em defesa de Haddad e provocou no twitter o PPS/MD33. Acompanhe:
MD33 São Paulo @MD33SP
O que o prefeito @Haddad_Fernando tem a dizer sobre a manifestação dos estudantes contra o aumento da tarifa de ônibus? Cadê o homem? Sumiu?
psd.novasideias.sp @psdnovasideias
A polícia é do Gov. do Estado...
MD33 São Paulo @MD33SP
Vai ver o vice @guilherme_afif (neopetista) mandou baixar paulada nos manifestantes ;-)
psd.novasideias.sp @psdnovasideias
Polícia é do Geraldo @MD33SP ... O @guilherme_afif cuida dos empreendedores.
MD33 São Paulo @MD33SP
Entendemos tarefa ingrata do @psdnovasideias: defender vice @guilherme_afif e seu partido que "não é esquerda, nem centro, nem direita"...
psd.novasideias.sp @psdnovasideias
MD33 São Paulo @MD33SP
Ei @psdnovasideias Vcs querem mesmo falar sobre "novos partidos" casuísticos, que abrem janela para adesismo ao governo e recursos do fundo?
Voltem qdo vcs tiverem um partido @MD33SP ... alias qdo organizamos o PSD seu presidente tb foi contra novos partidos. ta no site.
MD33 São Paulo @MD33SP
Engraçado @psdnovasideias: lei que vale para @gilbertokassab_ aderir ao governo do PT não vale para os partidos de oposição? Oportunistas!
Esta polêmica de ontem, entre PSD e PPS/MD33, não foi a primeira vez em que os dois partidos se confrontam no twitter. Releia aqui relato da jornalista Julia Duailib, do Estadão.
Leia também:
quinta-feira, 6 de junho de 2013
PT de bandeja: Salomé, Herodes e João Batista
Pega mal chamar Marco Feliciano de Salomé e o ministro Padilha de Herodes, nesta reedição do pedido da cabeça de João Batista?
Pois foi o que aconteceu, quase uma paródia bíblica, na demissão do diretor do Ministério da Saúde, após pedido do deputado Marco Feliciano ao ministro Padilha, contra a polêmica propaganda sobre o Dia da Prostituta.
Pois foi o que aconteceu, quase uma paródia bíblica, na demissão do diretor do Ministério da Saúde, após pedido do deputado Marco Feliciano ao ministro Padilha, contra a polêmica propaganda sobre o Dia da Prostituta.
Não contente em fazer a fama do deputado Marco Feliciano (PSC), entregando a ele a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados e garantindo a sua reeleição em 2014 (provavelmente como um dos mais votados), o PT completou a obra ontem. Leia aqui.
Agora, essa! Dia das Prostitutas: Ministro Padilha pede desculpas a Marco Feliciano. Deputado exigiu a cabeça de diretor e ministro a entregou na bandeja! Leia mais.
Kit-gay: ministro Haddad fez e negou. Campanha do dia da prostituta: ministro Padilha fez e negou! Motivo: pressão evangélica!
Seguindo os passos de Fernando Haddad, o potencial candidato ao Governo de São Paulo pelo PT, Alexandre Padilha, acha um culpado para entregar a cabeça e repete o modus operandi de bajulação à bancada evangélica!
Pouco importa respeitar mulheres, homossexuais ou direitos humanos: o que interessa ao PT, a Haddad e Padilha é voto! Dane-se o resto!
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